
Os meus olhos não sabem mais o que vêem, talvez por não saberem aquilo que querem ver, talvez por não saberem aquilo que devem ver, talvez por não haver nada mais para ver. Mas sou um corpo cuja brisa ainda toca o coração, que vive sob a chuva e sob o sol com a mesma intensidade, uma intensidade que não deve ser imposta pelas estações ou temperaturas que o tempo nos atira.
Não há passagem do tempo ou morte, apenas uma existência inerte, aberta aos desejos dos outros, ineficaz no cumprimento do amor, eficaz no cumprimento do fingimento. Sou, enfim, este corpo que diariamente se prosta a sentir o toque da madeira deste banco gasto e se regozija simplesmente em olhar o mar, sem dar uso à razão, ignorando a emoção, dizendo não àquilo que as ondas me dizem.
Sou um corpo a balançar no querer. Um corpo que hoje quer esquecer o ontem e pouca importância pretende dar ao amanhã. Sou assim, simplesmente, indecifrável, inexplicável, o que na minha permanente (des)construção é uma identidade sem base, uma escultura inacabada esquecida num atelier qualquer.
Sou, na verdade, o fruto de um coração que se partiu vezes sem conta e que de tanto se quebrar deixou pedaços abertos. Mas a real verdade, se me perguntarem, é que sou um nada querendo ser tudo.