
Hoje
quase tive um acidente. Detive-me hipnotizada a olhar um carro igual ao teu,
convencida de que eras tu. Pareces-me sempre tu. Tu multiplicado por mil dentro
e fora de mim. Um dia destes ainda me mato por tua causa. Imagina se te
encontro! Eu que não sei o que é amar o que farei ao coração e às mãos quando
te olhar de frente com este desejo imenso de te tocar? Queres que te explique
melhor? Não sei se existirão palavras suficientes que transponham para o campo
da compreensão aquilo que nem eu mesma entendo. Não sei se existem palavras
onde caiba tudo o que sinto dentro. É tão simples e eu sinto tudo cá dentro tão
complexo. Está-me debaixo da carne. Como tu.
Parei
o carro no meio da auto-estrada, os quatro piscas ligados, o corpo que não
parava de tremer. Queria ligar-te, dizer-te que és um cabrão e que te odeio,
mas haveria de te dizer outra coisa que não significasse isto, porque o significado do que sinto não é isso. Falar de coração
na boca faz-me outra e eu não posso ser outra enquanto tiver o coração na boca.
Nunca gostei de me sentir outra a não ser que pareça outra porque assim quero.
Quanto prazer há nisso.
Caminho
pela rua, há um homem que carrega o teu perfume e julgo-te tu. Dirias que estou
louca. Traz o teu sorriso, as mãos cravadas nos bolsos, o corpo a balançar
dessa mesma forma. Como tu. Talvez fosses tu. Devo estar mesmo louca. Ainda
morro por tua causa. Mas, não. Não te deixes enganar. Eu não te amo. Quero-te. Não
confundas os termos. Cá dentro és o que quero que sejas e eu não amo. Quero-te
tremendamente nesse prazer lascivo de te ter preso a essa liberdade
desconcertante em não amar. Amo em parcelas e isso basta-me. Dias há em que o teu corpo dentro da minha
cabeça me é suficiente. Esta noite mantenho-te assim. Amanha também. Talvez.
Dou
por mim em plena auto-estrada de mão pregadas ao volante, os carros a
ultrapassarem-me velozmente, por te julgar ver. Porque razão me hás-de tu
perseguir em corpos que não são o teu? Diz-me se estou doida que esta coisa que
trago dentro ainda me há-de matar. Não porque te ame, mas porque pareço outra
que não sou. Precisarei dizer-te isto? Não saberás tu que assim é? Não sabes
que me és pela forma como te olho olhos dentro do corpo? Isto digo eu que não
sei nada sobre a vida. Sei apenas o que me faz feliz.
Coloco
o pé de novo no acelerador e sei-te comigo. Na minha imaginação estás sempre,
quase sempre, comigo. Mas, sabes, não venhas devagar que a vida corre depressa
e eu tenho vontade de partir e pressa de chegar.