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terça-feira, 11 de junho de 2013
quarta-feira, 29 de maio de 2013
omnipresença

Hoje
quase tive um acidente. Detive-me hipnotizada a olhar um carro igual ao teu,
convencida de que eras tu. Pareces-me sempre tu. Tu multiplicado por mil dentro
e fora de mim. Um dia destes ainda me mato por tua causa. Imagina se te
encontro! Eu que não sei o que é amar o que farei ao coração e às mãos quando
te olhar de frente com este desejo imenso de te tocar? Queres que te explique
melhor? Não sei se existirão palavras suficientes que transponham para o campo
da compreensão aquilo que nem eu mesma entendo. Não sei se existem palavras
onde caiba tudo o que sinto dentro. É tão simples e eu sinto tudo cá dentro tão
complexo. Está-me debaixo da carne. Como tu.
Parei
o carro no meio da auto-estrada, os quatro piscas ligados, o corpo que não
parava de tremer. Queria ligar-te, dizer-te que és um cabrão e que te odeio,
mas haveria de te dizer outra coisa que não significasse isto, porque o significado do que sinto não é isso. Falar de coração
na boca faz-me outra e eu não posso ser outra enquanto tiver o coração na boca.
Nunca gostei de me sentir outra a não ser que pareça outra porque assim quero.
Quanto prazer há nisso.
Caminho
pela rua, há um homem que carrega o teu perfume e julgo-te tu. Dirias que estou
louca. Traz o teu sorriso, as mãos cravadas nos bolsos, o corpo a balançar
dessa mesma forma. Como tu. Talvez fosses tu. Devo estar mesmo louca. Ainda
morro por tua causa. Mas, não. Não te deixes enganar. Eu não te amo. Quero-te. Não
confundas os termos. Cá dentro és o que quero que sejas e eu não amo. Quero-te
tremendamente nesse prazer lascivo de te ter preso a essa liberdade
desconcertante em não amar. Amo em parcelas e isso basta-me. Dias há em que o teu corpo dentro da minha
cabeça me é suficiente. Esta noite mantenho-te assim. Amanha também. Talvez.
Dou
por mim em plena auto-estrada de mão pregadas ao volante, os carros a
ultrapassarem-me velozmente, por te julgar ver. Porque razão me hás-de tu
perseguir em corpos que não são o teu? Diz-me se estou doida que esta coisa que
trago dentro ainda me há-de matar. Não porque te ame, mas porque pareço outra
que não sou. Precisarei dizer-te isto? Não saberás tu que assim é? Não sabes
que me és pela forma como te olho olhos dentro do corpo? Isto digo eu que não
sei nada sobre a vida. Sei apenas o que me faz feliz.
Coloco
o pé de novo no acelerador e sei-te comigo. Na minha imaginação estás sempre,
quase sempre, comigo. Mas, sabes, não venhas devagar que a vida corre depressa
e eu tenho vontade de partir e pressa de chegar.
quarta-feira, 8 de maio de 2013
Lisboa vestida de cinza
Sempre tive uma paixão
secreta por Lisboa. Em tempos ansiei habitá-la. Tive essa ânsia de capital, de
ser parte dessa massa de gente que se atropela rua fora, sem entender muito bem
que motivos se escondiam nesse desejo. Hoje enquanto a calcava e a olhava pelos
vidros do carro, Lisboa pareceu-me gasta. Talvez esteja, à semelhança de tantas
outras capitais deste mundo. Talvez seja a ausência de sol que não lhe é
própria.
Gosto-lhe, confesso. Ser
grande dá-lhe caracter, enche-a de personalidade. Sinto, porém, falta disso que
chamam de 'gentes', do calor que as pessoas do Porto emanam naturalmente. Sinto
falta, inclusive, dos palavrões atirados 'à boca cheia'. Já não basta esta luz
hipnótica de fim de dia.
Sou uma
mulher enamorada por Lisboa. Sinto-a sempre como se fosse uma dessas paixões
arrebatadoras que se querem saciar imediatamente. Mas deixo sempre o coração no
Porto. E aos grandes amores convém escapar-lhes de quando a quando, para
que sintam a acidez da ausência. Escapo-lhe para lhe sentir saudade, porque
voltar a um grande amor é sentir tudo como se fosse a primeira vez, sabendo
antecipadamente o quanto se gosta.
quinta-feira, 25 de abril de 2013
um quarto branco no 25 de Abril
O quarto é branco. Os quartos dos hospitais são sempre demasiado brancos. Os espaços parecem ter cores que nos ferem os olhos. Sei que hoje é o 25 de Abril, que há discursos, filmes e manifestações, mas cá dentro não é dia nenhum. Ou é simplesmente um outro dia. Cá dentro está tudo demasiado calmo. O silêncio só é cortado pelas conversas das enfermeiras ali no fundo do corredor, por uma passagem curta de alguém por aqui para ver como está o soro e o corpo e regressa o silêncio.
A rapariga que estava ao meu lado entra no quarto de sorriso aberto e diz que se vai embora. E quase lhe tenho inveja. Imagino-a a sair do hospital para longe destas camas e destes corredores e, sim, tenho-lhe inveja. Fecho os olhos e sinto o sol quente no corpo, ouço as ondas a embater na areia e o som das muitas conversas cruzadas e o quarto parece-me menos branco.
Na parede para lá do meu quarto há grávidas que esperam. A ala da Ginecologia é possivelmente das mais felizes do hospital. Quase se sente no ar essa ânsia de quem aqui entra, a felicidade entre a respiração constante, o nervoso miudinho dos homens que esperam. E de repente já não há silêncio. Há um choro. Esse primeiro choro de quem acaba de chegar e dizer-se chegado. Sim, eu sei que é o 25 de Abril. Porque o 25 de Abril também é o choro de uma criança acabada de nascer.
segunda-feira, 15 de abril de 2013
corpo casa

Amas-me sem nunca o teres dito, sem nunca me teres olhado directamente nos olhos, sem nunca teres desejado que ficasse permanentemente na tua casa, na tua cama. E, no entanto, amas-me com amor suficiente para uma vida. Como o sei? Sei-o de cada vez que me abraças. É nos meus braços, tendo-me nos teus braços que me desejas ter para sempre. Porque o meu corpo é a tua casa. O meu corpo é a cama onde te deitas.
sexta-feira, 5 de abril de 2013
recuo aos 80
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Frame de Pedro Magano |
Apetece-me anos 80. Apetece-me entrar na máquina do tempo e regressar à infância. Apetece-me aquela ingenuidade simples e desculpável. Apetecem-me os arranhões de rápida cura, os beijos roubados atrás do palco. Apetece-me correr pela estrada e sentir o vento na face sem me preocupar com uma possível queda. Apetecem-me aqueles amores intensos na sua volatilidade, amores de brincar às casinhas durante o recreio. Apetece-me o mundo perfeito que os olhos inocentes conseguiam ver. Apetece-me ter título de criança.
quinta-feira, 4 de abril de 2013
isso
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Foto: lovetrains |
Não me digas que me amas. Vem, simplesmente, dar-me a mão, abraçar-me, permitir que repouse a face no teu ombro, deixar que acredite por largos minutos que o mundo é este calor que emanas da pele, o perfume que sinto colado ao teu pescoço, o mar e o céu fundidos em ti. Vem que hoje não preciso das palavras. Preciso de ti.
segunda-feira, 11 de março de 2013
carta

Nunca
te soube meu. Quando achava que o eras mostravas-me logo que não. Raios.
Acordar todos os dias com essa incerteza a encher-me o peito, essa incerteza de
não te saber meu, esse receio de que a qualquer minuto do dia desaparecesses
por completo quase me matava. E, no entanto, nunca me senti tão viva. Nunca o
coração me pareceu tão acordado nem os sentimentos tão despertos. Por isso tive
de te fugir. Antes que fosse tarde demais.
Cheiro
a ti, sabes. Tenho a impressão de que ficaste impregnado nas minhas mãos, de
tanto te ter tocado, pela forma como te abraçava contra mim para que não
partisses. Raios, o teu cheiro deixa-me louca. Não deves entender tudo isto. Quiçá
entendas. Não me importa se entendes ou não. Na verdade, importa-me. Queria ficar-te
colada na pele. Queria que todo este eu, o meu cheiro, os meus cabelos ficassem
nesse quarto, que jamais desaparecessem, que inundassem o espaço de cada vez
que colocasses uma outra mulher sobre esses lençóis onde fomos. Sei que me
amas. Amas profundamente, mas tens medo de me amar. Não deverias ter medo. Eu precisava
que não tivesses medo para não ter de fugir de ti. Mas é tarde demais.
quarta-feira, 6 de março de 2013
ponto final

Ele
voltava sempre que ela o havia esquecido. Os sentimentos borbulhavam dentro de
si e ela corria para não o encontrar à chegada, perdida para dentro do seu
silêncio angustiado. Há um silêncio desconcertante na morte. Essa ausência
galopante que se aproxima mais rápido do que os passos da corrida, essa dor
tenebrosa sem ferida aberta, saída de tudo quanto é corpo. Enfim, esse vazio
ríspido de navalha afiada que um corpo em corrida pelo esquecimento sempre encontrará
à chegada.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
quente
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donnainrivaalmare.jpg |
Cansei-me.
E no dia em que me cansei transformei-me numa mulher sem alma. Não há nada pior
que uma mulher sem alma. A carne engole-nos o coração, desprende-se algo para
dentro, permite-nos parecer estripadoras de corpos.
Chove
tremendamente, mas em mim está sol, há sol. Sento-me no teu colo e o som do mar
entra porta dentro. Vejo-te dentro de mim sem precisar de olhos para o ver.
Chove. Chove tremendamente, mas dentro de mim há um sol imenso. Está sempre
quente na minha imaginação. Uso um vestido fresco e curto e vejo-o esvoaçar com
a brisa do Verão, como se os momentos acontecessem em câmara lenta. Há
felicidade cá dentro. Sei que há, porque me sinto quente ainda que chova
insistentemente, ainda que saiba que é Inverno e a areia está molhada. Mas isso
é cá dentro. Lá fora é outra coisa.
Lá
fora gostar é um gemido. São os muitos gemidos, um atrás do outro,
incessantemente. Gostar é o sangue a correr dentro do corpo, a parecer que nos
vai saltar dos olhos. Perguntam-me se gosto deles e digo que sim. Vejo-lhes os
olhos entusiasmados e o peito orgulhoso. A minha mentira que lhes parece
verdade excita-me. Gostar é o descontrolo de não sabermos quem somos, é parecer
muitas num só corpo, corpo dentro. A culpa é dele, é deles, é minha. Que
importa o que nos transforma se em nada nos muda o que está dentro da pele?
Suavemente. Um atrás do outro. O corpo, mais um corpo, um outro corpo, o amor
em percentagens controladas e em tempo definido que não há tempo para amar e
amar, dizem, fere.
Passo
a mão pela relva acabada de cortar. Cheira a sal e uvas. Tenho um coração e uma
mão na minha mão. Há sol. Na minha imaginação há sempre um sol e um tu. Lá fora
é outra coisa.
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