quarta-feira, 6 de março de 2013

ponto final


Na vida dela havia apenas esquecimento. Empurrava uma memória atrás da outra para um saco sem fundo como se se prendesse num baloiço e se deixasse empurrar fortemente, esticando os pés contra o céu e a cabeça a roçar a areia. Esse desejo de ser criança colado ao corpo de mulher enquanto corria estrada fora, empurrando com os punhos uma memória atrás da outra. Corria cada vez mais veloz como se a quase ausência de forças a colocasse numa outra realidade, ausente de pensamentos. As cidades que haviam percorrido de mãos entrelaçadas a esfumarem-se. Expectativas. As expectativas primeiro. O esquecimento depois. O processo. A ausência de um processo.

Ele voltava sempre que ela o havia esquecido. Os sentimentos borbulhavam dentro de si e ela corria para não o encontrar à chegada, perdida para dentro do seu silêncio angustiado. Há um silêncio desconcertante na morte. Essa ausência galopante que se aproxima mais rápido do que os passos da corrida, essa dor tenebrosa sem ferida aberta, saída de tudo quanto é corpo. Enfim, esse vazio ríspido de navalha afiada que um corpo em corrida pelo esquecimento sempre encontrará à chegada.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

quente

donnainrivaalmare.jpg

Cansei-me. E no dia em que me cansei transformei-me numa mulher sem alma. Não há nada pior que uma mulher sem alma. A carne engole-nos o coração, desprende-se algo para dentro, permite-nos parecer estripadoras de corpos.

Chove tremendamente, mas em mim está sol, há sol. Sento-me no teu colo e o som do mar entra porta dentro. Vejo-te dentro de mim sem precisar de olhos para o ver. Chove. Chove tremendamente, mas dentro de mim há um sol imenso. Está sempre quente na minha imaginação. Uso um vestido fresco e curto e vejo-o esvoaçar com a brisa do Verão, como se os momentos acontecessem em câmara lenta. Há felicidade cá dentro. Sei que há, porque me sinto quente ainda que chova insistentemente, ainda que saiba que é Inverno e a areia está molhada. Mas isso é cá dentro. Lá fora é outra coisa.

Lá fora gostar é um gemido. São os muitos gemidos, um atrás do outro, incessantemente. Gostar é o sangue a correr dentro do corpo, a parecer que nos vai saltar dos olhos. Perguntam-me se gosto deles e digo que sim. Vejo-lhes os olhos entusiasmados e o peito orgulhoso. A minha mentira que lhes parece verdade excita-me. Gostar é o descontrolo de não sabermos quem somos, é parecer muitas num só corpo, corpo dentro. A culpa é dele, é deles, é minha. Que importa o que nos transforma se em nada nos muda o que está dentro da pele? Suavemente. Um atrás do outro. O corpo, mais um corpo, um outro corpo, o amor em percentagens controladas e em tempo definido que não há tempo para amar e amar, dizem, fere.

Passo a mão pela relva acabada de cortar. Cheira a sal e uvas. Tenho um coração e uma mão na minha mão. Há sol. Na minha imaginação há sempre um sol e um tu. Lá fora é outra coisa. 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O(s) primeiro(os) amor(es)

Fotografia: http://arianefaciloli.tumblr.com

Tinha um corpo pequeno. Um corpo tão pequeno quão pequeno deve ser o corpo de uma criança de 4 anos. Dentro desse corpo pequeno, também o coração era pequeno, um coração proporcional a si, um coração do tamanho certo. Mas chegou o tempo em que esse coração se tornou maior do que o seu corpo, como se rompesse a pele e quisesse correr estrada fora, fugir, sabe-se lá. Queria faze-lo porque não percebia que sentimento era esse que o queria fazer explodir. Era um sentimento demasiado grande para um corpo tão pequeno. Mas ela conseguiu suportá-lo, tomou-lhe prazer, percebeu que de repente ela era outra, era um sorriso enorme com perninhas a correr no recreio da escola, a esconder o olhar dele de tal timidez ele lhe provocava. Nesse tempo existiam cartas, as primeiras palavras que se aprendiam eram escritas numa folha em que o verdadeiro significado não estava no que dizia mas no que estava para além da palavra, isso que ainda não sabiam escrever.

Sabiam lá o que era isso do amor. Diziam que eles eram namorados e eles sentiam calor nessa palavra, acreditavam que sim, era isso que tinham no peito, fazia sentido dizerem-se namorados, darem as mãos, fazerem dos cenários do jardim de infância uma casa ilusória, ansiar pelo dia seguinte e o dia seguinte e o não desejo de fins-de-semana porque não se viam. O primeiro amor é diferente porque não conhecemos um outro, não existiu nenhum outro e, por isso, parece eterno. Dentro dela tinha a impressão de que esse amor jamais morreria e que se um dia essa pessoa já não corresse com ela no recreio ela continuaria lá, porque mesmo não estando ela continua a correr dentro dela, correrá até ao último dos seus dias.

O primeiro amor daquele pequeno corpo acompanhou-a ao longo de longos 6 anos, até que o 4º ano chegasse, o corpo fosse já maior, os sentimentos parecessem mais confusos, os momentos vazios de qualquer coisa, até que os objectivos fossem outros e os sonhos também, até que o amor se tornasse complexo, se esbatesse um pouco, mantendo-se no entanto grande dentro dela. Passa-se o resto da vida à procura deste primeiro amor. Ainda que ele seja o sétimo, o décimo, o vigésimo amor, ela queria que ele fosse sempre o primeiro, como o primeiro, inocente e grande, maior do que ela. De quando a quando sentiu que o encontrara, mas a sua complexidade, sempre a complexidade das palavras, dos rumos, dos sentimentos levavam-no. Talvez houvesse algo para além das palavras, algo no que se dizia ou escrevia mas que não estava lá, como quando não sabia escrever e escrevia apenas o que sabia, significando uma outra coisa. Às vezes as palavras não chegam. Às vezes a linguagem não é suficiente. Às vezes é preciso ver para além das palavras. Descolar o eu emocional do eu racional (se o conseguir) e entender o que não é compreensível. O primeiro amor continua dentro dela. Talvez, porém, não chegue na hora certa, no local exacto. É que o primeiro amor não é perfeito, não é pontual, não aparece quando o pedimos. Mas quando chega, ela sabe exactamente que é ele. E ele havia chegado. 

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Esses que apelidam de lenda

Dizia há muitos anos atrás, nesse tempo em que muitos de nós éramos nada, Jacqueline Kennedy "Agora é uma lenda, mas teria preferido ser um homem". Talvez Lance Armstrong tenha, por fim, desejado ser apenas um homem, de carne e osso, abandonando essa pele de lenda que lhe vestiram. Muitos de nós continuaremos a desejar que ele seja essa lenda, que não seja homem, que seja O homem que transformou o impossível em possível, que seja o tal que, inacreditavelmente, conseguiu o que nenhum homem outrora conseguira, que seja esse em que se busca a tal característica física ou psicológica que faz dele um ser especial, uma lenda. 

Muitos de nós desejam manter a crença de que ele é uma lenda, acreditando que a mentira é verdade e que se ele agora faz uso da verdade está, na verdade, a mentir, porque acreditar é mais fácil. Queremos que ele seja uma lenda, porque as lendas alimentam, as lendas movem, as lendas inspiram. Queremos que ele seja uma lenda para acreditar que afinal aos Homens basta o esforço e a motivação para alcançarem o inalcançável. Queremo-lo porque nada o derrubou no caminho, nada o fez derrubar-se, nem mesmo isso que chamam de cancro. E porque são esses, e não outros, que no fim do seu tempo fazem do tempo de todos os outros que lhe seguem seu tempo também. Perduram, infinitamente, para lá do relógio que a condição humana impõe. Todos querem ser esse homem.

As acções fazem o homem e as lendas criam-se fruto dessas acções. Não sabemos em que verdade acreditar. Em determinados momentos parece errado não acreditar que um entre muitos homens é perfeito. Como parece ser igualmente errado acreditar que há quem o possa ser. 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Uma não partida

Fotografia: Felipe Rocha

Não são necessárias palavras robustas para se falar de saudade. Às vezes penso naqueles dias cinzentos carregados de nevoeiro, que exigem que liguemos os mínimos logo pela manhã para que possamos ver meio metro de estrada, para saber que a saudade é isso. Um lusco fusco num caminho com tanto para trás que queremos voltar a colocar à frente.

Tenho caminhado pela cidade na tentativa de me adaptar às novas cores, de inalar este cheiro novo, de me sentir eu aqui, mas é a minha rua que me cobre a retina. Nos prédios altos vejo as casas de baixa estatura, de janelas abertas para deixar entrar o sol e a roupa lavada estendida no alto. Nas pessoas que correm por este caminho, sem nunca pronunciar um olá ou um sorriso, vejo os rostos da minha aldeia carregados de modéstia e desejo de nos cumprimentar.

A vida já não é a mesma. Não é. O meu coração continua naquele aeroporto, preso aos últimos abraços, preso à angustia da partida. Julgo que nunca parti. Ainda percorro a calçada meia atrapalhada nas pedras incertas, com o cheiro a mar ali tão perto e aqueles que se amam ainda mais perto. Mas ainda tenho os sonhos e embrulhar-me neles dia fora sabe ao som das palavras que me enchem a vida.

É. Parece que nada mudou. Sei que a minha mãe - que saudades - está a cozinhar bacalhau porque é Segunda-feira, o meu pai - que saudades - está sentado em frente a ler o jornal e a ouvir o Preço Certo na televisão e o meu sobrinho - que saudades - corre de um lado para o outro, pronunciando coisas que ninguém entende, mas aos quais todos sorriem. Haverá mais gente depois do jantar. Os meus irmãos - que saudades -, os restantes sobrinhos - que saudades - numa confusão de uma ensurdência quente. Eu chegarei a casa dentro de momentos, quando já todos começaram a jantar e esperam a minha buzina para me abrir a porta da garagem.

Esperem só um pouco. Não tarda nada estarei à porta.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

ontem


Ando inquieta. Como esses que percorrem corredores para lá e para cá. Ando inquieta. Às vezes ainda penso nele. Por vezes ainda faz sentido repensarmo-nos, imaginarmo-nos. Às vezes ainda fazemos sentido. Devo andar meia tresloucada, desvairada para voltar assim atrás no tempo, nas memórias, nas emoções, na vida. As palavras desembrulharam-se todas de uma só vez. Volto a vê-lo e a ouvi-lo como se a vida acontecesse de novo. 

Ele a andar pela casa cheio de palavras na boca. Fala do sofá e de como as almofadas o farão novo. Olha para uma secretária que não existe e imagina que dali, da cadeira que um dia existirá, me observará, deitada no sofá. 

- Quando estiver calor podemos colocar uma mesa na varanda e jantar lá. Aqui ainda se sente o cheiro a mar. Adoras o mar, não é? Do nosso quarto vê-se uma nesga da praia, as ondas a rebentar lá ao fundo, um pescador ou outro, de pé como um castiçal durante horas, à espera que o mar o sirva. 

Às vezes ainda fazemos sentido.

Eu a corar de amor, perdida ou embalada, sei lá, nas palavras, perdida nas respostas que lhe deveria ter dado naquele momento, sem esperar uma outra ocasião, uma melhor ocasião, a ocasião perfeita. 

Os primeiros cheiros a espalharem-se pela casa, os sonhos alojados no chão. O cheiro a casa que nos pertence. As memórias envolvem-nos de tal forma que parece Verão no nosso coração. A vida fica-nos oca. Anos depois tudo nos parece oco e desvairado de sentido. E, no entanto, ando com esta incerteza colada à pele e não sei que destino lhe dê. É, às vezes ainda fazemos sentido. No sonho tudo faz sentido.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Maria ou simplesmente Mia


Não trazemos para as linhas das folhas as histórias daqueles que nos tocam. Não o fazemos por reconhecermos que os anos e momentos que as revestem nos infligem de impotência, por percebermos que somos carne e nada força quando o presente desses se transformou numa invontade, invida, intudo. E inventamos palavras porque na verdade nenhuma palavra descreve aquilo em que a vida delas se transformou. Foi isso, apenas isso, esse vazio arrebatador que nos afunila, que senti no momento em que voltei a ver a Maria.

A história da Maria, ou Mia como sempre carinhosamente lhe chamamos, há-de perder-se no tempo. Porque a história das mulheres comuns pouco ou nada interessa à História. Desvanecem-se nas bocas e no tempo e com elas acaba por desaparecer a personagem principal. Mas é a história das mulheres comuns que carrega dureza e é da história das mulheres comuns de que é feita a nossa história.

Dura na atitude, mole nos sentimentos, a Mia amou, desde que a minha memória a carrega, um homem que nunca lhe pertenceu mas que sempre caminhou imaginariamente a seu lado, apesar de casada com um outro homem que escondia a desilusão de o saber. Lembro-me de a ver pela casa, de a sentir como uma segunda mãe, de a saber nossa como foi dos cinco homens que se transformaram em filhos. Lembro-me dos domingos de correria matinal, de passo apressado para a missa, do sabor dos seus rissois   e dos beijos repenicados. Eu lembro-me. Ela não. Da Mia de outrora hoje não resta nada. A mercearia, a casa, o grupo coral e tudo o resto memórias que nem memórias são. Para a Mia a quem não resta nada, o tempo que sempre lhe pareceu demasiado curto hoje é longo e cheio de nada.

Havia passado muito tempo, anos porventura, desde que a havia visto. Não por falta de tempo. Não por distância. Mas por medo. Receei durante muito tempo o que o tempo lhe poderia ter causado. E quando decidi que era tempo, vê-la foi como deixar de ser. No momento em que lhe encontrei o olhar reconheci o que sempre soube, que não lhe resta nada a não ser a espera vazia de memórias, vazia de palavras, vazia de movimento. Uma não existência já. 

Podem retirar-nos muito do que construímos, das coisas que possuímos, as pessoas que amamos. Mas havemos de manter sempre as memórias daquela que é a nossa história. É esse património que deveria ficar obrigatoriamente connosco até ao dia em que não mais estivéssemos. Mas no caso da Maria as recordações perderam-se para dentro de si, para um desses labirintos desvendáveis.  Eu tenho esperança que ela seja das últimas a quem as memórias se escaparam para o desconhecido. É apenas uma esperança, porque esperança é nesta história a única coisa que me é permitida.